3 por cento – Crítica série original Netflix brasileira

O fato dessa ser a primeira produção brasileira da Netflix já devia ser o bastante pra fazer qualquer um assistir a série 3 por cento. Não vou mentir e dizer que a série não tem defeitos, mas ela também tem muitas qualidades. Os personagens e o universo tem tudo pra durar e nos conquistar cada vez mais.

A discussão e o tema de 3 por cento

3% constrói muito bem um mundo de distopia, num futuro não tão distante. O universo da série é deliberadamente desigual, mas ao contrário de ideias como Jogos Vorazes, onde você instantaneamente escolhe um lado, 3 por cento consegue ser razoavelmente imparcial. A ideia em si discute o que é justo ou não: apenas 3% da população terá direitos básicos, uma vida decente, riquezas, qualidade de vida… Todo o restante não. Como eles vendem a ideia e fazem ela não parecer tão absurda? A famosa divisora de opiniões: a meritocracia.

A forma como 3 por cento explora esse mundo é crua, verdadeira – sem exagerar, sem forçar choro, sem ser sensacionalista. A verdade é que aquela já é a realidade de muitos brasileiros, que os produtores colocam como foco e maioria.

A série tem personagens muito fortes, com opiniões diversas quanto ao processo, fazendo com que cada espectador consiga se identificar com alguém. Os mais individualistas, os humanitários, os líderes, os sonhadores… A discussão central do que é mérito, de quem merece uma vida boa e de quem é descartável é muito atual. Muito forte. Muito presente no Brasil de hoje. Sempre existem os que pensam só na própria vida, em ser bem sucedido, alcançar o topo; enquanto outros querem uma realidade melhor para todos – é óbvio que existiriam muitos conflitos, muitas personalidades se mostrando durante essa primeira temporada.

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O que a série tem de melhor

O que mais funciona? As surpresas. Os episódios focam cada vez em um personagem principal, fazendo com que a gente entenda seus passados e formas de pensar. Essa é uma maneira muito eficiente de criar empatia, mesmo com os “vilões”, desmistificando e humanizando eles. Em 3%, a técnica funciona muito bem. Eventualmente você entende e se vê torcendo por todos os personagens, o que dá até uma confusão mental – de que lado eu estou?

Um fato: a série vicia. Mesmo. Todo episódio acaba tendo um twist, um acontecimento inesperado, além de quase todos terem um final em cliffhanger – quando a resposta só vem no próximo episódio. Para a felicidade geral da nação (literalmente), é Netflix né, então é só continuar apertando o play. A série tem 8 episódios, dá pra ver em um dia. Aliás, deve-se ver tudo em um dia, uma maratona nunca fez tanto sentido.

O problema? Você vai, mais uma vez, ficar órfã de uma série bem boa, com mais um ano pela frente até a próxima temporada finalmente ser lançada.

Os defeitos, já esperados, não estragam a série 3 por cento.

Quando a série utiliza de CGs pra mostrar o continente, por exemplo, claramente ainda falta técnica. Essa é uma dificuldade no Brasil, ainda, mas alguns dos efeitos na série funcionam, como os cenários futuristas em si. Não é algo que incomode os leigos, mas pra quem está acostumado com filmes e jogos atualmente impecáveis, fica bem evidente esse problema.

As atuações, em alguns momentos muito impressionantes, em outros penam bastante, principalmente nos diálogos travados típicos dos roteiros brasileiros. Alguns arcos de personagens também ficam confusos, com algumas atitudes não se encaixando no que parecia aceitável para aquela pessoa. Mas, no geral, cada personagem tem seu lado intrigante e muito mais camadas do que parecem ter num primeiro momento.

A verdade é que a série é muito boa. Se ela não fosse brasileira talvez não criticássemos tanto. É um lindo começo pra representar o Brasil lá fora nessa plataforma tão importante que é a Netflix. O futuro da série não fica tão claro. Os personagens principais terminam a primeira temporada em diferentes situações quanto ao processo e o Mar Alto. Mas é claro que a sociedade dos 3% pode esperar mais ação por parte dos miseráveis, cada vez menos satisfeitos com o processo. Ainda tem muita rebeldia por vir.

Não deixem de assistir 3 por cento – e de reconhecer o quão novo e importante tudo isso é, antes de só criticar qualquer detalhe da série. Fiquem com o trailer legendado em inglês, em homenagem aos gringos, depois corram pra casa fazer uma maratona:

Marina

Sobre o autor

Paulistana, 25. Formada em Cinema pela FAAP e em Roteiro para Séries de TV e Filmes pela Vancouver Film School. Escritora, Produtora e Tradutora Audiovisual, especializada em binge-watching series since before it was cool.

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